A seguir um trecho do livro 'Diários da Eternidade', antigo 'A Origem
da Eternidade' que narra a odisseia de um misterioso homem que recebeu
em tempos imemoráveis a dádiva da imortalidade dos sumérios e com o
advento da medicina da imortalidade emergente num futuro próximo ele
resolve se apresentar oficialmente ao mundo narrando sua jornada de
milhares de anos pela terra a procura de um semelhante imortal.
Algum lugar do Iraque, 2028
Por
muito tempo esperei por aquele momento o qual tive ciência por uma
quase profecia ancestral de tempos em que a mitologia era história. O
alvorecer da jornada final da humanidade havia começado florescer, o
advento da medicina da imortalidade ansiado pela humanidade como um
ribombar de mitos antigos estava na iminência. Todo esse tempo de espera
como a testemunha definitiva da humanidade não pode ter sido em vão,
havia chegado a hora de contar a humanidade uma verdade
avassaladoramente revolucionária, algo que anui ver os mitos de forma
visceral, algo que me faria sentir-me menos só em minha eterna jornada.
Compartilhar o fardo eterno era o que aliviaria a cruz dos imortais o
qual era assombrado por meu próprio passado.
Mas primeiro
precisava reencontrar aquele antigo local dentre muitos locais antigos
numa antiga jornada. O lugar em seu tempo era de decadência desde quando
Maomé e os seus se levantaram no mundo, aquilo cheirava ao típico
império do findo humano, onde tudo morre, tudo acaba, mas curiosamente
onde tudo começou.
Haviam tiros e rumores de ataques
terroristas quando saí de Bagdá com aquele jovem rumo a antigas e
esquecidas ruínas sumérias, totalmente diferente do esplendor que aquele
lugar fora um dia a milhares de anos atrás e hoje é uma cidade
miserável perpetrada por fanáticos de Maomé.
Nós preparávamos
para sair quando ouvimos um estrondo que nos deixou surdos, pó e cinzas
nos sobreveio como uma nuvem a tomar toda nossa visão. Quando a audição
retornou mediante um intenso zumbido ouvimos gritos de crianças e choro,
pedidos de socorro ante a mortalidade antecipada por aqueles que apenas
perpetuavam isso, a morte e o medo. Sai em meio a cintilar de sirenes e
correria de todos por todos lados, estava um pouco aflito a ponto de
sentir perto a inócua fatalidade dos perigos humanos. Pedi para que o
jovem dirigisse pois estava com o mapa para me localizar num lugar que
como disse estava muito diferente do que fora outrora a ponto de achar
ser outro lugar. Mas afinal em minha jornada descobri que por mais que
viajasse sempre veria os mesmos lugares se transformar em outros lugares
com o tempo.
- Quanto anos você não vem aqui? - Indagou o jovem iraquiano dirigindo.
- Não sei ao certo, mas faz muito, muito tempo.
- Uma década? - Insistiu o jovem guia e estudante de arqueologia, mas
apenas respondi com o silêncio. - Olha, lamento pelo atentado, nunca
sabemos quando...
- Apenas dirija, Yurem. - Interrompi o jovem secamente.
- Só quero dizer que arqueólogos como o senhor são bem-vindos nisso
aqui mesmo que considere perca de tempo pra onde quer ir. - Insistiu ele
sem tirar os olhos do horizonte que agora era árido sob o sol
escaldante. - Lá fora achado apenas o que seria os restos de um templo
sumério e... - o jovem se calou ao olhar para mim pois lhe fintava
penetrantemente em tom de reprovação. - Tá bem, vou ficar quieto.
Seguimos a viagem aos rincões das cinzas de civilizações sobrepostas
ante o deserto árido, mas o jovem que era movido por uma sadia
curiosidade típica de estudantes e de mentes brilhantes queria
compreender o porquê de estar engendrando aquela viagem a um lugar
considerado infrutífero a arqueologia. O aspecto de Yurem dele era do
típico jovem iraquiano, moreno tinha a barba feita e usava roupas
tradicionais, longas vestes até os pés, mas temia o que a curiosidade
poderia lhe guiar.
Assim os minutos se passaram e os minutos
se transforam em horas. Quando chegamos percebi o quão estéril aquele
lugar se tornou de modo que fui tomado por uma forte sensação de
nostalgia.
Descemos do carro e após mostrar nossos passes aos
militares que guardavam aquelas ruínas que emergia das vísceras da terra
árida e adentramos. O jovem Yurem tirou sua lanterna e eu guardei o
mapa, o jovem olhou para mim esperando o que fazer.
Caminhamos
pelo interior do lugar que era vasto, o eco de nossos passos se ouviam
de modo catedrático, mas tirando isso e o som de nossa respiração aquilo
era um só silêncio sepulcral.
- Olha, espero que saiba o que está procurando. - Disse o jovem Yurem ecoando pelo corredor onde adentramos.
Parei diante de uma parede com inscrições na língua suméria, palpei as
gravações cuneiforme incrustradas silenciosamente enquanto a lanterna de
Yurem cortava escuridão. Virei-me e vi que da porta no fim do corredor
havia um enorme vão que descia como um poço a uns dez metros.
- Por aqui. - Disse ao jovem Yurem. - Onde o último sol da civilização se põe.
- Fico feliz que o senhor saiba traduzir a escrita cuneiforme dos sumérios, mas por ai não tem nada, só um enorme fosso!
- Olha cá meu jovem, eu lhe paguei apenas pelo passe pelos militares,
caso não queira acompanhar não me acompanhe. Na verdade assim prefiro. -
Respondi o jovem que pernameceu irriquieto.
Cheguei na
beirada do vão e iluminei com a laterna, era aquele lugar! Coloquei a
mão na parede interna do vão e palpei cegamente quando senti uma
manivela. A puxei e um estrondo surdo se ouviu abrindo uma porta secreta
no alto, onde o poço caia. O jovem virou-se debruçando-se com a
lanterna e o que viu lhe deixou estupefato.
- Meu deus! Como
nunca achamos isso? - Se indagou ecoante de modo que suas perguntas
pareciam se repetir assim como em sua cabeça pela curiosidade.
Segurei a manivela e dei um pulo para a entrada lateral passando por
cima daquele fosso, o jovem fez o mesmo atrás de mim deixando a lanterna
cair no fosso e apenas se ouvindo seu espatifar em seu fundo de modo
ecoante. Olhei para ele com olhar de reprovação novamente.
Dei
vários passos iluminando o lugar que era um pouco maior que um cômodo, a
luz desvelou então alguns vasos de barro que imediatamente me aproximei
abaixando-me para tirar o que havia em seu interior. Nisso o jovem
ilumina o que parecia ser um busto humano caído ao chão desvelando da
escuridão sua face ancestral.
O jovem Yurem então cerrou a
visão e iluminou demoradamente o busto abaixando-se sobre ele enquanto
tirava algo do interior do vaso. Perplexo, o jovem então apontou a
lanterna para mim me fazendo me virar, a face do busto era a mesma que a
minha concluiu ele em comparação.
- Meu Deus, esse busto é igual ao senhor! - Exclamou ele exultante.
- Cuidado Yurem para que sua curiosidade não lhe conduza a loucura. - Respondi alheio a isso.
Tirei do interior quatro tabletes com inscrições sumérias, quatro
tabuletas, o jovem Yurem ainda estava entretido com o fato do busto ser
uma cópia minha, sua mente havia um burburinho de perguntas cujas
respostas considerava impossível.
Coloquei no chão e
fotografei com o celular, fazia tanto tempo que não me recordava do que
elas diziam. Apontei o facho da luz para outras e sorri satisfeito
apesar da amargura de encontrar aquele lugar como estava. Entreguei a
tabuletas na mão de Yurem e disse antes de me retirar.
- Espero que tenha uma ótima formatura!
Pulei o fosso para o outro lado de volta e com o tom de saudosismo
caminhei pelo corredor deixando Yurem falando sozinho. Tinha tudo que
precisava, as informações ancestrais daquela tabuleta agora me
conduziram as ancestrais lembras de um tempo em que aquele lugar era
dourado com o sol do entardecer.
***
Hoje dia do escritor publico as duas primeiras artes de capa do projeto literário de romance, Diários da Eternidade. Clique nas imagens para ampliar.